Radiofrequência pulsada no osso subcondral: uma nova hipótese para a dor da artrose de joelho
Artigo na Frontiers in Pain Research (2026), com o Dr. João Protásio Netto como coautor e autor correspondente, que propõe um novo alvo para a dor da artrose de joelho: o osso subcondral, tratado com radiofrequência pulsada.
Por Dr. João Protásio Netto — Publicado em 2026-10-21 — 8 min de leitura
A dor da artrose de joelho também começa no osso, não só na cartilagem
Na artrose de joelho, a atenção costuma ir para a cartilagem desgastada. Mas uma parte importante da dor pode nascer logo abaixo dela, no osso subcondral, a camada de osso que sustenta a cartilagem. Neste artigo publicado na revista científica internacional Frontiers in Pain Research, com o Dr. João Protásio Netto como coautor e autor correspondente, os pesquisadores propõem olhar para esse osso como um novo alvo de tratamento da dor.
As lesões de medula óssea (BMLs) e a dor no joelho
Na ressonância magnética, muitos joelhos com artrose mostram manchas no osso subcondral chamadas lesões de medula óssea, ou BMLs. Elas correspondem a microfraturas, fibrose e alterações nos vasos dentro do osso, e estão ligadas tanto à dor quanto à progressão da artrose. Apesar disso, nenhum tratamento disponível age diretamente nessa região, e é essa lacuna que o artigo procura responder.
A hipótese: radiofrequência pulsada dentro do osso subcondral
A proposta é posicionar, por meio de uma agulha-eletrodo, radiofrequência pulsada dentro do osso subcondral do joelho, no planalto tibial medial, uma das áreas que mais sofrem na artrose. Diferente da radiofrequência convencional, a pulsada não queima o tecido: ela entrega campos elétricos em pulsos, com o objetivo de modular os nervos e as células do osso, sem destruí-los.
Os mecanismos de ação propostos
A ideia se apoia na forma como o osso e os nervos conversam entre si:
- Nervos que regulam o osso: dentro do osso existem nervos sensitivos que não apenas sentem dor, mas também ajudam a comandar a formação de osso novo. Em modelos de laboratório, quando esses nervos são desligados, o osso enfraquece.
- A via química (PGE2 e receptor EP4): o osso produz uma substância chamada PGE2, captada pelos nervos sensitivos por meio de um receptor (EP4). Esse sinal participa do controle da formação óssea, e mexer nele pode influenciar como o osso se recupera.
- O exemplo dos campos eletromagnéticos (PEMF): estímulos elétricos pulsados já aumentaram a formação de osso e a quantidade de nervos em estudos animais, um efeito que dependia de nervos sensitivos íntegros e de uma proteína chamada Sema3A. Isso mostra que um estímulo pulsado pode ativar o próprio sistema do corpo para formar osso.
Juntando essas peças, a hipótese é que a radiofrequência pulsada aplicada no osso subcondral poderia modular esse circuito nervo-osso local, agindo sobre a lesão de medula óssea e, com isso, sobre a dor e a saúde do osso.
Por que é diferente da radiofrequência de nervo já usada
A radiofrequência dos nervos geniculares, já conhecida para dor de joelho, age ao lado do nervo, fora da articulação, e alivia a dor sem mostrar mudança na estrutura do osso. A proposta deste artigo é diferente no alvo e na intenção: o eletrodo fica dentro do osso, buscando atuar na raiz do problema, e não apenas interromper o sinal de dor.
Uma linha de pesquisa promissora
Essa é uma hipótese de pesquisa, e o próximo passo é testá-la em estudos específicos. Mas organizar as evidências e propor um alvo novo para uma doença que afeta centenas de milhões de pessoas faz parte do trabalho de quem acompanha de perto a fronteira da medicina da dor e regenerativa. Para o paciente, o recado é que a ciência busca tratar a artrose de joelho de forma mais profunda, indo além da cartilagem.
Referência
Lana JF, Jorge D, Protásio Netto J, Pontes de Macedo A, Pires L, Costa F, Mosaner T, Sobreiro P, Santos D, Teixeira A, Rohof O. Pulsed radiofrequency neuromodulation of subchondral bone in knee osteoarthritis. Front Pain Res. 2026;7:1968444. DOI: 10.3389/fpain.2026.1968444.
Perguntas frequentes
O que é o osso subcondral e por que ele importa na artrose de joelho?
É a camada de osso logo abaixo da cartilagem do joelho. Nela surgem as lesões de medula óssea (BMLs), associadas à dor e à progressão da artrose. O artigo propõe tratar essa região, que hoje não é alvo direto dos tratamentos disponíveis.
Como a radiofrequência pulsada agiria no osso?
A radiofrequência pulsada entrega campos elétricos em pulsos, sem queimar o tecido. A hipótese é que ela module o circuito entre os nervos sensitivos e as células do osso subcondral, que ajuda a regular a formação óssea, atuando sobre a lesão de medula óssea e sobre a dor.
Qual a diferença para a radiofrequência de nervo já usada no joelho?
A radiofrequência dos nervos geniculares atua ao lado do nervo, fora da articulação, e alivia a dor sem mudar a estrutura do osso. Aqui o eletrodo ficaria dentro do osso subcondral, com a intenção de agir na origem do problema.
O que são as lesões de medula óssea (BMLs)?
São áreas no osso subcondral vistas na ressonância, com microfraturas e alterações da medula e dos vasos. Estão ligadas à dor e à piora da artrose, e são o foco da hipótese apresentada no artigo.
