Hidrogel de Ácido Hialurônico: os 3 tipos usados na ortopedia regenerativa
Revisão publicada na revista Gels (MDPI, 2026), com coautoria do Dr. João Protásio Netto, que organiza o ácido hialurônico em três formas diferentes e explica qual delas é, de fato, um gel.
Por Dr. João Protásio Netto — Publicado em 2026-09-25 — 7 min de leitura
Nem todo ácido hialurônico injetável é igual
O ácido hialurônico (ou hialuronano) é uma molécula natural do líquido das articulações, responsável por parte da viscosidade e da lubrificação que protegem a cartilagem. Nos últimos anos, ele passou a ser usado de muitas formas na ortopedia, das injeções para artrose (viscossuplementação) aos suportes usados em procedimentos regenerativos. O problema apontado nesta revisão é que a palavra hidrogel virou um termo guarda-chuva: preparações com estruturas muito diferentes recebem o mesmo nome, como se fossem iguais.
Os três estados do material
O artigo organiza o ácido hialurônico em três formas distintas:
- Solução linear nativa: o hialuronano na forma natural, uma solução viscoelástica. Dá viscosidade ao líquido da articulação, mas, nas concentrações e pesos moleculares usados nos viscossuplementos do mercado, comporta-se como um líquido viscoso, e não como um gel estruturado.
- Derivado físico (HYADD-4): uma versão modificada que se auto-organiza em uma rede física transitória por interações entre suas partes. Comporta-se de forma mais elástica, quase como um gel, mas ainda sem a confirmação formal que o classificaria definitivamente como tal.
- Reticulado com BDDE: o hialuronano quimicamente ligado, formando uma rede tridimensional permanente. Esse é o único dos três que preenche todos os critérios de um gel de verdade.
Afinal, o que pode ser chamado de gel?
Os autores estabelecem dois critérios objetivos: uma rede conectada que atravessa todo o material e uma resposta mecânica de sólido, medida por reologia. Aplicando esses critérios, só o material reticulado se qualifica plenamente. A solução linear não se qualifica nas condições dos produtos comerciais, e o derivado físico fica no meio do caminho.
Por que isso importa para quem trata artrose
A arquitetura da rede muda o comportamento do produto: viscoelasticidade, resistência à degradação dentro da articulação e tempo de permanência. Materiais em rede tendem a durar mais e resistir melhor à degradação do que a solução linear, o que dá base teórica para uma permanência mais longa. Isso ajuda a entender por que diferentes injeções de ácido hialurônico não se comportam da mesma maneira.
O que a ciência ainda precisa confirmar
A revisão é honesta ao apontar os limites: a vantagem clínica de um material sobre o outro ainda se apoia principalmente em dados pré-clínicos e de laboratório, e não em desfechos clínicos definitivos. Os autores propõem um modelo de três estados como forma de organizar a literatura e apoiar escolhas mais racionais, mas deixam claro que ele ainda precisa de validação. A mensagem não é que um produto é melhor que o outro, e sim que eles são materialmente diferentes e merecem ser avaliados como tais.
Referência
Costa FR, Santana MHA, de Andrade RM, Netto JP, Pires L, Azzini G, Kruel A, Mosaner T, da Fonseca LF, Lana JF. Hyaluronan Hydrogels: Three Material States in Regenerative Orthopaedics. Gels. 2026;12(10):867. DOI: 10.3390/gels12100867.
Perguntas frequentes
Todo ácido hialurônico injetável é um hidrogel?
Não. Segundo esta revisão, o ácido hialurônico existe em três formas: a solução linear nativa, o derivado físico (HYADD-4) e o reticulado com BDDE. Só o reticulado se comporta como um gel de verdade; a solução linear é um líquido viscoso e o derivado físico fica no meio do caminho.
O que muda entre um ácido hialurônico linear e um reticulado?
A estrutura da rede. O reticulado forma uma rede tridimensional permanente, com maior viscoelasticidade e resistência à degradação dentro da articulação, o que dá base teórica para uma permanência mais longa em comparação com a solução linear.
O ácido hialurônico reticulado é comprovadamente melhor para artrose?
A revisão não afirma isso. Ela mostra que os materiais são fisicamente diferentes, mas ressalta que a evidência de vantagem clínica de um sobre o outro ainda se apoia principalmente em dados pré-clínicos e de laboratório, e precisa de mais estudos clínicos.
Quem participou deste estudo?
É uma revisão publicada na revista científica Gels (MDPI, 2026), com coautoria do Dr. João Protásio Netto, ortopedista em Palmas-TO, junto a um grupo de pesquisadores em medicina regenerativa e engenharia de materiais.