Fratura do fêmur em idosos: como é o tratamento cirúrgico

Nesse artigo comparamos os dois principais tipos de cirurgia para fraturas do fêmur em idosos: haste intramedular e placa DHS. Analisamos tempo de cirurgia, sangramento, complicações e recuperação funcional em 18 estudos com milhares de pacientes. Os resultados ajudam médicos e familiares a entender qual tratamento oferece melhores resultados para cada tipo de fratura.

Por Dr. João Protásio Netto — Publicado em 2025-11-18 — 14 min de leitura

Primeira página do artigo sobre Hastes Intramedulares vs DHS publicado na Revista Brasileira de Ortopedia

Fratura do fêmur no idoso: um problema cada vez mais comum

A fratura do fêmur é uma das lesões mais temidas na terceira idade. Todos os anos, milhões de idosos em todo o mundo sofrem quedas que resultam em fraturas na região do quadril, mais especificamente na região chamada transtrocanteriana, que fica logo abaixo da articulação do quadril. No Brasil, estima-se que mais de 100 mil fraturas do fêmur proximal ocorram anualmente, e esse número cresce à medida que a população envelhece.

Se você é familiar de alguém que quebrou o fêmur, ou se você mesmo passou por isso, sabe como essa fratura muda a vida de uma pessoa. A dor é intensa, a mobilidade fica comprometida e a recuperação pode ser longa. Por isso, a escolha do tratamento cirúrgico adequado é fundamental para garantir a melhor recuperação possível.

Mas qual é a melhor cirurgia para fratura do fêmur? Existe um implante melhor que o outro? Foi exatamente isso que nosso grupo de pesquisa investigou neste estudo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia.

O que é uma fratura transtrocanteriana?

A fratura transtrocanteriana é um tipo de fratura do fêmur que acontece na região entre o trocanter maior e o trocanter menor, duas proeminências ósseas que ficam na parte superior do osso da coxa, logo abaixo do quadril. É diferente da fratura do colo do fêmur, que ocorre mais acima, dentro da articulação.

Esse tipo de fratura é extremamente comum em idosos, especialmente em mulheres após a menopausa, por causa da osteoporose (enfraquecimento dos ossos). Na maioria dos casos, acontece após uma queda simples da própria altura, como escorregar no banheiro, tropeçar em um tapete ou perder o equilíbrio ao levantar da cama.

Os principais sintomas da fratura do fêmur incluem:

Por que a cirurgia é necessária?

Diferente de outras fraturas que podem ser tratadas com gesso ou imobilização, a fratura do fêmur em idosos quase sempre precisa de cirurgia. O motivo é simples: manter um idoso acamado por semanas esperando o osso colar naturalmente traz riscos graves como pneumonia, trombose venosa profunda (coágulos nas pernas), embolia pulmonar, escaras e perda muscular intensa.

A cirurgia permite que o paciente comece a se movimentar mais rapidamente, reduzindo drasticamente essas complicações. Por isso, as diretrizes internacionais recomendam que a cirurgia seja realizada nas primeiras 24 a 48 horas após a fratura.

Os dois principais tipos de cirurgia: haste intramedular vs. placa DHS

Existem dois sistemas principais de fixação utilizados para tratar fraturas transtrocanterianas:

Haste intramedular com bloqueio cefálico

A haste intramedular é um implante metálico em forma de bastão que é inserido dentro do canal medular do fêmur (o centro oco do osso). A haste é fixada com um parafuso que vai até a cabeça do fêmur, estabilizando a fratura por dentro do osso. Exemplos incluem a PFNA (Proximal Femoral Nail Antirotation), Gamma Nail e Intertan.

Por estar posicionada dentro do osso, a haste fica mais próxima do eixo mecânico do fêmur, o que oferece maior estabilidade biomecânica, especialmente em fraturas mais complexas e instáveis.

Parafuso deslizante de quadril (DHS)

O DHS (Dynamic Hip Screw) é um implante que consiste em uma placa metálica fixada na lateral do fêmur, conectada a um parafuso grande que desliza dentro de um cilindro até a cabeça do fêmur. Esse mecanismo permite uma compressão controlada da fratura durante a consolidação.

O DHS funciona muito bem em fraturas simples e estáveis, mas depende da integridade da parede lateral do fêmur para funcionar adequadamente.

O que nosso estudo descobriu: resultados de 18 pesquisas analisadas

Para responder definitivamente qual é o melhor implante, analisamos 18 estudos científicos de alta qualidade que compararam diretamente hastes intramedulares com o DHS em fraturas instáveis. Veja os principais resultados:

O que comparamosHaste IntramedularPlaca DHSQual foi melhor?
Tempo de cirurgia12 minutos mais rápidaMais demoradaHaste
Sangramento na cirurgia88 mL a menosMaior sangramentoHaste
Implante soltou ou quebrouMenos casosMais casosHaste
Precisou reoperarMenos reoperaçõesMais reoperaçõesHaste
MortalidadeSem diferençaSem diferençaEmpate
Recuperação funcionalSem diferençaSem diferençaEmpate

Menos tempo de cirurgia significa menos risco

Para um idoso frágil, cada minuto a mais na sala de cirurgia representa maior exposição à anestesia e maior risco de complicações. A haste intramedular foi em média 12 minutos mais rápida, o que pode parecer pouco, mas faz diferença significativa em pacientes com doenças cardíacas, pulmonares ou renais.

Menos sangramento é crucial em idosos

Idosos frequentemente já apresentam anemia (falta de sangue) antes da cirurgia, agravada pelo sangramento da própria fratura. A diferença de 88 mL a menos de sangramento com a haste intramedular pode significar a diferença entre precisar ou não de uma transfusão de sangue, que traz seus próprios riscos.

Menos complicações mecânicas com a haste

Um dos problemas mais temidos após a cirurgia de fratura do fêmur é a falha do implante, quando o parafuso "corta" através do osso enfraquecido da cabeça femoral (o chamado cut-out). Nossos dados mostram que isso acontece significativamente menos com as hastes intramedulares, especialmente nas fraturas mais instáveis.

Quando cada cirurgia é mais indicada?

Baseado nos nossos resultados, recomendamos:

Recuperação após cirurgia de fratura do fêmur: o que esperar

Independente do implante utilizado, a recuperação após uma fratura do fêmur exige paciência e dedicação. Alguns pontos importantes:

Cerca de 50% dos idosos que sofrem fratura do fêmur não recuperam o nível de independência que tinham antes da fratura. Por isso, o tratamento cirúrgico adequado e a reabilitação precoce são fundamentais.

Como prevenir fraturas do fêmur

A prevenção é sempre o melhor tratamento. Para reduzir o risco de fratura do fêmur em idosos:

Dados da publicação

Este artigo foi publicado na Revista Brasileira de Ortopedia (RBO), em 2025, com revisão por pares. A pesquisa foi conduzida pelo Departamento de Ortopedia da Universidade Federal do Tocantins (UFT) em colaboração com a University Hospitals Birmingham NHS Foundation Trust (Reino Unido) e centros de pesquisa de São Paulo.

Acesso ao artigo completo: Revista Brasileira de Ortopedia

DOI: 10.1055/s-0045-1812024

Perguntas frequentes

O que é uma fratura de fêmur em idosos?

É uma quebra no osso da coxa, geralmente na região do quadril. É comum em idosos e acontece na maioria das vezes após uma queda simples.

Por que a cirurgia é importante para fraturas de fêmur em idosos?

A cirurgia é essencial para que o paciente possa se movimentar rapidamente. Isso ajuda a evitar problemas como pneumonia e coágulos no sangue, que podem surgir se a pessoa ficar muito tempo acamada.

Quais são os principais tipos de cirurgia para fratura de fêmur?

Os dois métodos mais comuns são a haste intramedular e a placa DHS. A haste é um pino inserido por dentro do osso, e a placa é fixada na lateral do osso.

Qual cirurgia é melhor para cada caso?

Para fraturas mais complicadas, a haste intramedular costuma ser a melhor opção. Para fraturas simples, a placa DHS também é eficaz, sendo uma boa alternativa em hospitais com menos recursos.

Como posso ajudar a prevenir fraturas de fêmur?

É importante tratar a osteoporose, evitar quedas em casa, praticar exercícios para fortalecer os músculos e manter a visão em dia. Revisar medicamentos que causam tontura também é importante.